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O preço da alternativa

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Um mito comum sobre terapias alternativas é que elas, de alguma maneira, representam  economia para o paciente ou o erário. Esse foi o raciocínio por trás da máquina de propaganda mobilizada por Mao Zedong para inventar a "medicina tradicional chinesa", criando uma ilusão de coerência filosófica que amarrasse a miríade de superstições, invencionices, bruxarias (e algumas observações astutas sobre saúde humana) que curandeiros diversos praticavam, no interior da China, num pacote único que tivesse algum verniz de respeitabilidade. A preocupação de Mao era com o custo de levar médicos adequadamente treinados a todos os cantos da nação continental e, também, criar um produto de exportação atraente, que apelasse à quase automática reverência ocidental diante dos "mistérios do Oriente".

A mesma questão de custos aparece na recente decisão do governo brasileiro de ampliar o cardápio de "terapias alternativas" disponível no SUS. Embora o discurso oficial tenda …

Partido da ciência?

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Pesquisadores brasileiros, assustados com os cortes suicidas no financiamento público para a ciência, analisam a possibilidade de criar um partido político para fazer a representação e a defesa dos cientistas nas instâncias em que se decide a divisão do butim -- desculpe -- da verba pública. Em princípio, não há nada de essencialmente ruim com a ideia. Se pastores evangélicos têm seus próprios partidos, por que não cientistas? Há até alguma base -- científica -- para a ideia.

Lá nos idos de 2010, fiz uma entrevista com o ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2007, Roger Myerson, que na época fazia um estudo sobre, exatamente, o sistema eleitoral brasileiro (a área de especialização de Myerson é teoria dos jogos).

De acordo com ele, o sistema brasileiro de voto proporcional com lista aberta -- onde os votos são, primeiro, do partido e, só depois, dos candidatos, seguindo a ordem de escolha popular -- é o "segundo pior possível", porque, primeiro, divorcia o eleitor do elei…

Ficção científica e eu

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Eu às vezes escrevo ficção científica. Já escrevi mais, é verdade, mas já faz um tempo que ando espaçando (sem trocadilho) minha produção no gênero. Já falei sobre essa pausa em postagens anteriores, mas, resumindo: a ficção científica, para mim, entrou na fase de retornos reduzidos, em que a energia gasta na produção da história acaba superando as recompensas (materiais e outras) da publicação. De qualquer maneira, ainda tem muita gente que me identifica com o gênero, o que é perfeitamente compreensível: não dá pra passar mais de 20 anos fazendo uma coisa sem que a "coisa" acabe grudando na sua pele, por assim dizer.

Por conta disso, às vezes me convidam para palpitar a respeito. A oportunidade mais recente veio da Revista ComCiência da Unicamp, para a qual produzi o artigo A Veia Obscurantista da Ficção Científica, uma chance fantástica de refletir sobre algo que me incomoda há tempos: por que um gênero -- literário, cinematográfico, quadrinístico, radiofônico, etc. -- qu…

Homeopatia, evidência e a importância do "no entanto"

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Os leitores mais chegados ao mundo acadêmico talvez estejam sabendo da celeuma causada pela publicação, no Jornal da USP, de nota anunciando o lançamento de uma revista reunindo supostas evidências científicas a favor da homeopatia, mais um lance nas "homeopathy wars" da vetusta Universidade de São Paulo. Algumas pessoas criticaram o jornal por dar guarida a esse tipo de material, mas eu, talvez movido por espírito de corpo, ponderei que, se a universidade, enquanto instituição, legitima a prática -- por exemplo, conferindo graus de Mestre e Doutor a autores de trabalhos sobre o tema --, não é o coitado do editor do jornal institucional que vai decidir sozinho que o assunto é bobagem.

Mas, enfim: evidências! Que evidências? Passando os olhos pelo índice da edição, um título em especial se destaca: Pesquisa clínica em homeopatia: revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados controlados. O resumo do artigo proclama que, com base em estudos publicados até 2014 e numa …

Charlatão que prometia curar câncer é preso

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Nos Estados Unidos. A mídia norte-americana informa que Robert O. Young, autor de uma popular série de livros pseudocientíficos sobre saúde e dieta intitulada pH Miracle, vai passar pelo menos cinco meses atrás das grades depois de confessar oferecer -- sem ter nenhuma credencial médica -- tratamentos para câncer. De acordo com o jornal The San Diego Union-Tribune, "ele havia sido condenado, ano passado, em duas acusações de praticar a medicina sem licença, e se declarou culpado, no início deste ano, por mais dois crimes".
O relato do Union-Tribune prossegue: "Young, de 65 anos, não se manifestou durante a audiência judicial, que marcou o fim de um processo criminal de três anos que pôs em evidência suas teorias controversas e os tratamentos caros que oferecia a pacientes gravemente doentes ou moribundos, que em alguns casos recebiam fluidos intravenosos misturados a bicarbonato de sódio, por US$ 500 a dose".

Um caso especialmente notório envolvendo Young foi o da…

Leitura sensível e umas coisinhas mais

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Costumo não escrever muito sobre literatura. Acho que a melhor forma de mostrar como acho que se deve escrever ficção é aplicando minhas crenças e idiossincrasias à minha obra, não dando palpite no que os outros fazem. Mas essa polêmica toda em torno da questão da "leitura sensível" (também aqui) acabou tangenciando alguns temas que me são caros, então lá vou eu fazer o que não devia.

Pelo que depreendi, esse tipo de trabalho, em que um texto é submetido, pré-publicação, a um leitor crítico identificado com um grupo social minoritário que analisará o conteúdo vis-a-vis as sensibilidades particulares do grupo,  pode cumprir uma de duas funções, ou ambas: orientar o method writer -- aquele que, como os atores "de método", faz  questão de conhecer, entender e sentir "na pele" um assunto antes de retratá-lo na ficção -- ou alertar o autor para o uso de palavras, expressões, situações, etc., consideradas ofensivas pelo grupo a que o "leitor sensível"…

Trump, Bolsonaro, QI e nióbio

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E continuo a produzir colaborações para o jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. Depois da "trilogia" Homeopatia, fosfo, mudança climática, do início do mês passado, agora tenho dois novos textos no ar, ambos com uma pegada que mistura ciência e política.

O mais recente, intitulado Você tem um QI maior que o de Donald Trump? Descubra, se divide em duas partes, uma sobre os estudos publicados em periódicos norte-americanos sobre os fatores -- incluindo inteligência -- que levam um presidente a entrar para a história como chefe de um governo bem-sucedido, e a segunda, sobre testes de inteligência e a hipótese das "múltiplas inteligências". Já o anterior,  O nióbio vai salvar a economia do Brasil, como defende Bolsonaro?, tem um título altamente autoexplicativo.

Há ainda o outros textos engatilhados, e vou avisando, por aqui e nas redes sociais, à medida que o material for aparecendo.