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Mostrando postagens de 2017

Os segredos da cratera, e arredores

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Semana passada, passei cinco dias percorrendo a região de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, em companhia de um guia local e de um fotógrafo espanhol, contratado para documentar o trabalho de um grupo de cientistas franco-brasileiros na Cratera de Colônia, uma depressão (provavelmente) provocada por um asteroide, milhões de anos atrás. Como a pauta do fotógrafo envolvia a questão ambiental no entorno da cratera, visitamos muita coisa -- favelas, aldeias indígenas -- além do próprio local do trabalho dos cientistas. O resultado da experiência eu destilei nesta reportagem, publicada pelo Jornal da Unicamp.

Educação e catástrofe, novo round

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Em seu livro-reportagem-depoimento The Unpersuadables, o jornalista britânico William Storr narra diversos períodos de sua vida em que conviveu com figuras "impersuadíveis" -- pessoas cujas convicções pareciam inabaláveis mesmo diante da mais sólida evidência. Um dos trechos mais tensos do livro relata a viagem que Storr fez a um campo de extermínio nazista, num tour guiado por David Irving, o notório negador do Holocausto. Sem se revelar como jornalista, o autor passa dias, efetivamente, infiltrado num grupo internacional de neonazistas e simpatizantes.

O Irving delineado no perfil de Storr é um sujeito às vezes arrogante, às vezes simpático, cuja principal força motriz é uma necessidade profunda de desafiar o mainstream -- e, o jornalista especula, de provar que a entrada da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial foi um erro. Storr propõe a hipótese de que Irving, que era criança durante a "blitz", teve sua infância arruinada pela guerra, e ressente-se disso: sua …

O memorando do cara do Google: ofuscados pela ciência

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Quem viu a postagem anterior do blog sabe que andei meio fora de contato com os dramas da civilização nesta semana. Ao que parece, enquanto eu me envolvia com questões menores como a devastação da Mata Atlântica, a poluição das águas, a sustentabilidade das comunidades indígenas e a pesquisa sobre o paleoclima do Hemisfério Sul, algo realmente importante estava acontecendo --  a saber, a demissão de um engenheiro do Google, por ter divulgado um memorando que argumenta que a política da empresa de buscar paridade de gênero em todas as áreas, incluindo liderança e programação, é injusta, incorreta e viola as conclusões da melhor ciência disponível, ciência essa que apontaria uma inadequação inata do sexo feminino para essas posições.

Mas, enfim. Como tenho um histórico de discutir questões envolvendo o choque entre ciência e preconcepções políticas (como em minhas várias postagens sobre aquecimento global e transgênicos), e o assunto envolve o princípio da liberdade de expressão, algo …

Cratera, represa, pobreza e meio ambiente

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A região de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo, abriga as represas Billings e Guarapiranga, cinco aldeias guarani (sete, se contadas as duas que ficam na mesma área geral, mas já no município de São Bernardo do Campo) e uma cratera de 3,6 quilômetros de diâmetro cuja origem á provavelmente meteorítica -- mas disso ninguém tem certeza. Foi percorrendo esse meio que passei os últimos dias, desde o fim de semana passado (notaram que dei uma sumida da internet?), acompanhado pelo guia Fernando Bike -- morador da comunidade de Vargem Grande, que ocupa parte da chamada Cratera de Colônia -- e acompanhando o fotógrafo Moises Saman, da Agência Magnum.

Saman veio ao Brasil  como parte do investimento do banco francês BNP Paribas no estudo da cratera: uma missão franco-brasileira cientistas está, nesta semana, realizando uma perfuração ali para retirar sedimentos de uma coluna que, esperam os pesquisadores, cobrirá um período passado de 800 mil a 1 milhão de anos.

A operação, delicada, envo…

Evolução a jato em lago de hidrelétrica

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Desde que Charles Darwin retornou à Inglaterra, depois da viagem do Beagle, e se pôs a matutar sobre as 13 diferentes espécies de tentilhão encontradas nas  Ilhas Galápagos, que o isolamento de diferentes populações de uma mesma espécie animal em ilhas, ou em ilhas e no continente, é apontado como um fator que impulsiona a evolução. Não haveria por que imaginar que em ilhas formadas pela ação humana a coisa fosse ser diferente. Trabalho publicado nesta semana no periódico PNASaponta que, em menos de 20 anos desde a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa, em Goiás, os lagartos da espécie Gymnodactylus amarali que ficaram "naufragados" em ilhas já divergem consideravelmente dos colegas deixados nas margens.

De autoria de pesquisadores brasileiros e americanos -- e liderado por Mariana Eloy de Amorim, da UnB e da Universidade da Califórnia -- o estudo constatou que as populações que ficaram isoladas nas ilhas agora têm cabeças maiores que os primos que permane…

Cidades perdidas, alfabetos estranhos

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Geralmente, quando se fala em pseudoarqueologia, as pessoas pensam em deuses astronautas pairando sobre as pirâmides, egípcios ruivos emigrando para o México (ou o Peru), Atlântida, templários ou tribos perdidas de Israel na América do Norte ou, um clássico moderno, pirâmides na Bósnia. O brasileiro pode se sentir meio desvalorizado diante de tanta exuberância lá fora. Mas não há razão: existe, sim, uma pequena, porém operosa, indústria de "mistérios do passado" baseada em artefatos nacionais. Ela só é pouco conhecida.

O primeiro desses artefatos é o chamado Documento 512 da Biblioteca Nacional (de onde vem a imagem que abre esta publicação, aliás). Supostamente escrito na década de 1750, mas só vindo a público em 1839, ele narra a descoberta, por um grupo de bandeirantes, dos vestígios de uma civilização perdida no interior da Bahia.

Como relata o historiador Johnni Langer em artigo publicado na Revista Brasileira de História, a mera possibilidade de o Brasil ter abrigado …

Falácias favoritas

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Enquanto me preparava, na última semana, para a mesa sobre divulgação científica da qual participei, na USP de Ribeirão Preto (com Pirula e Reinaldo José Lopes), reli Como Mentir com Estatística, de Darrell Heff, um clássico da alfabetização estatística publicado originalmente em 1954. O livro de Heff é curto, ilustrado com divertidos cartuns assinados por Irving Geis, e evita entrar em detalhes técnicos abordados por diversas obras posteriores, como O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, ou mesmo o Cartoon Guide to Statistics, de Larry Gonick (de onde saiu a ilustração abaixo).




O objetivo de Heff não é ensinar a fazer estatística, ou apresentar as bases filosóficas do pensamento estatístico/probabilístico, mas educar o leitor leigo para que seu simples bom-senso não seja eclipsado por gráficos, porcentagens e alegações supostamente "apoiadas em dados estatísticos".

Nesse trabalho, o autor chama atenção para duas falácias que eram de uso comum no discurso político e publi…

Aquecimento global: notícias do "front"

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Algo que notei em tempos recentes é que, enquanto o combate ao negacionismo climático consome tempo e paciência da pequena comunidade brasileira de divulgação científica (o caso do Pirula, com quem conversei no início da semana, é apenas o mais recente e emblemático), um monte de ciência séria continua a ser feita a respeito da mudança climática e de seus impactos, e nós divulgadores acabamos não dando tanta atenção para ela; ficamos meio obcecados com o ladrar dos cães, e não vemos a caravana passar.

Por conta disso, resolvi fazer aqui um apanhado do que de mais importante publicações científicas sérias, revisadas por pares, andaram dando sobre o assunto -- só na última semana. Vamos nessa?

Começando pelo mais recente: Estados Unidos, China, Índia, Vietnã, Tailândia, Laos, Bangladesh, Mianmar e as duas Coreias correm grave risco de ver seus rios poluídos com excesso de fertilizantes -- causando o efeito conhecido como eutrofização, que provoca grande mortalidade de animais e plantas…

O preço da alternativa

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Um mito comum sobre terapias alternativas é que elas, de alguma maneira, representam  economia para o paciente ou o erário. Esse foi o raciocínio por trás da máquina de propaganda mobilizada por Mao Zedong para inventar a "medicina tradicional chinesa", criando uma ilusão de coerência filosófica que amarrasse a miríade de superstições, invencionices, bruxarias (e algumas observações astutas sobre saúde humana) que curandeiros diversos praticavam, no interior da China, num pacote único que tivesse algum verniz de respeitabilidade. A preocupação de Mao era com o custo de levar médicos adequadamente treinados a todos os cantos da nação continental e, também, criar um produto de exportação atraente, que apelasse à quase automática reverência ocidental diante dos "mistérios do Oriente".

A mesma questão de custos aparece na recente decisão do governo brasileiro de ampliar o cardápio de "terapias alternativas" disponível no SUS. Embora o discurso oficial tenda …

Partido da ciência?

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Pesquisadores brasileiros, assustados com os cortes suicidas no financiamento público para a ciência, analisam a possibilidade de criar um partido político para fazer a representação e a defesa dos cientistas nas instâncias em que se decide a divisão do butim -- desculpe -- da verba pública. Em princípio, não há nada de essencialmente ruim com a ideia. Se pastores evangélicos têm seus próprios partidos, por que não cientistas? Há até alguma base -- científica -- para a ideia.

Lá nos idos de 2010, fiz uma entrevista com o ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2007, Roger Myerson, que na época fazia um estudo sobre, exatamente, o sistema eleitoral brasileiro (a área de especialização de Myerson é teoria dos jogos).

De acordo com ele, o sistema brasileiro de voto proporcional com lista aberta -- onde os votos são, primeiro, do partido e, só depois, dos candidatos, seguindo a ordem de escolha popular -- é o "segundo pior possível", porque, primeiro, divorcia o eleitor do elei…

Ficção científica e eu

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Eu às vezes escrevo ficção científica. Já escrevi mais, é verdade, mas já faz um tempo que ando espaçando (sem trocadilho) minha produção no gênero. Já falei sobre essa pausa em postagens anteriores, mas, resumindo: a ficção científica, para mim, entrou na fase de retornos reduzidos, em que a energia gasta na produção da história acaba superando as recompensas (materiais e outras) da publicação. De qualquer maneira, ainda tem muita gente que me identifica com o gênero, o que é perfeitamente compreensível: não dá pra passar mais de 20 anos fazendo uma coisa sem que a "coisa" acabe grudando na sua pele, por assim dizer.

Por conta disso, às vezes me convidam para palpitar a respeito. A oportunidade mais recente veio da Revista ComCiência da Unicamp, para a qual produzi o artigo A Veia Obscurantista da Ficção Científica, uma chance fantástica de refletir sobre algo que me incomoda há tempos: por que um gênero -- literário, cinematográfico, quadrinístico, radiofônico, etc. -- qu…

Homeopatia, evidência e a importância do "no entanto"

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Os leitores mais chegados ao mundo acadêmico talvez estejam sabendo da celeuma causada pela publicação, no Jornal da USP, de nota anunciando o lançamento de uma revista reunindo supostas evidências científicas a favor da homeopatia, mais um lance nas "homeopathy wars" da vetusta Universidade de São Paulo. Algumas pessoas criticaram o jornal por dar guarida a esse tipo de material, mas eu, talvez movido por espírito de corpo, ponderei que, se a universidade, enquanto instituição, legitima a prática -- por exemplo, conferindo graus de Mestre e Doutor a autores de trabalhos sobre o tema --, não é o coitado do editor do jornal institucional que vai decidir sozinho que o assunto é bobagem.

Mas, enfim: evidências! Que evidências? Passando os olhos pelo índice da edição, um título em especial se destaca: Pesquisa clínica em homeopatia: revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados controlados. O resumo do artigo proclama que, com base em estudos publicados até 2014 e numa …

Charlatão que prometia curar câncer é preso

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Nos Estados Unidos. A mídia norte-americana informa que Robert O. Young, autor de uma popular série de livros pseudocientíficos sobre saúde e dieta intitulada pH Miracle, vai passar pelo menos cinco meses atrás das grades depois de confessar oferecer -- sem ter nenhuma credencial médica -- tratamentos para câncer. De acordo com o jornal The San Diego Union-Tribune, "ele havia sido condenado, ano passado, em duas acusações de praticar a medicina sem licença, e se declarou culpado, no início deste ano, por mais dois crimes".
O relato do Union-Tribune prossegue: "Young, de 65 anos, não se manifestou durante a audiência judicial, que marcou o fim de um processo criminal de três anos que pôs em evidência suas teorias controversas e os tratamentos caros que oferecia a pacientes gravemente doentes ou moribundos, que em alguns casos recebiam fluidos intravenosos misturados a bicarbonato de sódio, por US$ 500 a dose".

Um caso especialmente notório envolvendo Young foi o da…

Leitura sensível e umas coisinhas mais

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Costumo não escrever muito sobre literatura. Acho que a melhor forma de mostrar como acho que se deve escrever ficção é aplicando minhas crenças e idiossincrasias à minha obra, não dando palpite no que os outros fazem. Mas essa polêmica toda em torno da questão da "leitura sensível" (também aqui) acabou tangenciando alguns temas que me são caros, então lá vou eu fazer o que não devia.

Pelo que depreendi, esse tipo de trabalho, em que um texto é submetido, pré-publicação, a um leitor crítico identificado com um grupo social minoritário que analisará o conteúdo vis-a-vis as sensibilidades particulares do grupo,  pode cumprir uma de duas funções, ou ambas: orientar o method writer -- aquele que, como os atores "de método", faz  questão de conhecer, entender e sentir "na pele" um assunto antes de retratá-lo na ficção -- ou alertar o autor para o uso de palavras, expressões, situações, etc., consideradas ofensivas pelo grupo a que o "leitor sensível"…

Trump, Bolsonaro, QI e nióbio

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E continuo a produzir colaborações para o jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. Depois da "trilogia" Homeopatia, fosfo, mudança climática, do início do mês passado, agora tenho dois novos textos no ar, ambos com uma pegada que mistura ciência e política.

O mais recente, intitulado Você tem um QI maior que o de Donald Trump? Descubra, se divide em duas partes, uma sobre os estudos publicados em periódicos norte-americanos sobre os fatores -- incluindo inteligência -- que levam um presidente a entrar para a história como chefe de um governo bem-sucedido, e a segunda, sobre testes de inteligência e a hipótese das "múltiplas inteligências". Já o anterior,  O nióbio vai salvar a economia do Brasil, como defende Bolsonaro?, tem um título altamente autoexplicativo.

Há ainda o outros textos engatilhados, e vou avisando, por aqui e nas redes sociais, à medida que o material for aparecendo.

A essência do jornalismo de "saúde e bem-estar"

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Vindo diretamente do sempre ótimo xkcd.


Unboxing the Gibson Box

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Há alguns -- muitos? -- anos, fiz uma série de trabalhos para a Editora Aleph, incluindo revisão, copidesque e, às vezes, até a tradução parcial de alguns títulos de ficção científica. Atualmente, quando sai uma nova edição de um dos livros em que trabalhei, a editora às vezes me manda um exemplar de cortesia. Hoje, voltando do almoço, fui surpreendido na portaria do prédio pelo "box" William Gibson, que reúne os três volumes da Trilogia do Sprawl, publicada originalmente entre 1984 e 1988 e que traz aquele futuro cyberpunk de cabo Phillips no cérebro e ônibus espaciais japoneses que todos conhecemos.

Dos três livros, em Neuromancer (o primeiro) não fiz nada, em Mona Lisa Overdrive (o último) fiz a revisão (ou ao menos é o que diz a ficha técnica: confesso de pés juntos que não me lembro), mas no do meio, Count Zero, trabalhei bem próximo ao tradutor, Carlos Angelo,  fazendo sugestões sobre o texto em português e cotejando-o com o original à medida que a tradução avançava. …

Mijo de cavalo e a derrota da Anvisa

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"Pode ser mijo de cavalo, não ligo. Funciona". A frase teria sido dita pelo presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, quando lhe informaram do conteúdo das injeções estimulantes que o médico alemão Max Jacobson lhe aplicava regularmente: anfetaminas, hormônios, analgésicos, esteroides y otras cositas más. Não é muito difícil imaginar o espírito de Jacobson, cuja "injeção mágica" provavelmente ajudou a destruir a vida de gente como Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor, pairando, em bênção, sobre o presidente da Câmara e presidente em exercício da República, Rodrigo Maia, durante a sanção da lei que passou por cima da Anvisa e liberou o uso de inibidores de apetite à base de anfetaminas no Brasil.

Sobre os detalhes da decisão legislativa brasileira e seu "embasamento" técnico, o editorial deste sábado da Folha de S. Paulo é sucinto e direto ao ponto:


Algo que deve (ou deveria) dar margem a análises mais aprofundadas  é o papelão das entidades de classe …