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Mostrando postagens de 2017

Arte vulcânica marciana

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Esta foto aí é a ampliação de uma seção de um milímetro de largura de um meteorito marciano, vista por um microscópio de luz polarizada. As diferentes cores representam diferentes minerais. Ela faz parte de um estudo publicado emNature Communications sobre a taxa de crescimento dos vulcões marcianos, que pelo que estimam os autores é muito mais lenta que a verificada na Terra.

O estudo foi feito com base numa família de meteoritos que se originou, toda ela, de um único evento -- a colisão de um asteroide com a encosta de um vulcão marciano há 10 milhões de anos (mais ou menos), lançando lascas ao espaço. Algumas delas caíram na Terra, em lugares tão diversos quanto Egito, Antártida e Brasil (o Meteorito Governador Valadares).

Mas essa conversa de meteorito e vulcões marcianos é só desculpa minha para publicar a foto, mesmo. Eu podia tentar sacar da algibeira algumas platitudes (como "sacar da algibeira") sobre a interação entre acaso, catástrofe, natureza, ciência e arte --…

Por uma indignação mais seletiva

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No universo das redes sociais, "indignação seletiva" virou sinônimo de hipocrisia, mas eu gostaria de sugerir que, tomada ao pé da letra, esta expressão define algo de que precisamos com urgência: um senso de indignação que selecione melhor seus alvos. A histeria coletiva em torno do "caso" MAM é apenas um exemplo, mas dá para citar vários outros.

Quem já habitava este Vale de Lágrimas nas últimas décadas do século passado talvez se lembre de dois importantes slogans da era pós-ditadura, quando forças então de esquerda e então racionais e éticas (a saber, o velho PT e o núcleo peemedebista que viria a criar o velho PSDB) disputavam o poder com os herdeiros corruptos e retrógrados do entulho autoritário, como o PFL (que virou DEM) e o partido do Maluf (que mudou tanto de nome que não sei mais como se chama). Esses slogans eram: "Não podemos nos dispersar" e "Temos de nos indignar".

A primeira dessas exortações pode soar, dependendo das inclinaçõ…

Zika Vírus mutante, origem dos planetas, ondas gravitacionais, percevejos

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Esses são alguns dos temas da newsletter desta semana, já enviada aos assinantes. Para assinar, é preciso escolher a segunda opção no menu abaixo (a terceira e a quarta também estão valendo, claro...)


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Satanistas e pastafarianos, uni-vos!

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Já escrevi tanto sobre laicismoe ateísmo militante (por exemplo, nesta postagem do blog, nesta outra e neste artigo para a Folha de S. Paulo [atrás de um payall, sorry]), que a preguiça quase me impede de volar ao assunto. Mas, fazer o quê, né? Repetindo o que escrevi há mais de seis (seis!) anos:

Sei que muita gente torce o nariz para esse ateísmo, digamos, "in your face", exibicionista, loquaz -- estridente, diriam alguns. Amigos cuja opinião respeito queixam-se de que esse "novo ateísmo", ou "ateísmo afirmativo", acaba sendo tão chato, inoportuno, pentelho, etc., quanto o proselitismo religioso. Será que as pessoas não seriam mais felizes se, simplesmente, parássemos de encher o saco uns dos outros com metafísica?

Por mais que eu possa simpatizar com a opinião expressa no parágrafo acima, ela deixa de levar em conta dois fatores -- talvez os fatores -- fundamentais: primeiro, a religião é estruturalmente incapaz de respeitar uma trégua do tipo; el…

Sarek e Teoria dos Jogos

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Gostei dos dois primeiros episódios de Star Trek Discovery. Não que sejam perfeitos (spoilers começam aqui) -- por exemplo, o fato de a nave  Shenzhou não ter uma sonda não-tripulada disponível ainda me soa estranho -- mas, no geral, os episódios são boa ficção científica, dentro dos padrões de um espetáculo de massa, e boa Star Trek.

A ver se o nível se mantém ou melhora nos próximos episódios, claro.

Sei que muita gente vai discordar da última afirmação do primeiro parágrafo, então aqui vou eu defendê-la contra a ideia de que a série é Trek "apenas em forma, não em espírito". Evidências pró: temos  a missão que abre o primeiro episódio, salvar uma espécie alienígena de uma seca; o maravilhamento da protagonista com o fenômeno cósmico que estuda em seguida, seu sobrevoo quase reverente da misteriosa estrutura klingon, que por alguns instantes faz lembrar Arthur C. Clarke; temos linhas e mais linhas de diálogo ("A Frota Estelar nunca atira primeiro", "Somos e…

"Cura Gay" é o "Design Inteligente" da saúde mental

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"Design Inteligente" (DI) é um movimento de marketing político-religioso, disfarçado de ciência, que tenta contrabandear o criacionismo -- a ideia de que a vida na Terra é, demonstravelmente, o produto da ação deliberada de um ser mitológico adorado por tribos semitas da Era do Bronze -- para as salas de aula. Intelectualmente, trata-se de uma realização da falácia de petitio principii, ou presumir a conclusão: já que a Bíblia está certa, a ciência tem de demonstrar isso, e a evolução não pode ser verdade.

Sua expansão no Brasil coincidiu com a conquista de força política e penetração popular por denominações cristãs de forte inspiração norte-americana. Os Estados Unidos são o berço do design inteligente, que é promovido, principalmente, pelo think-tank cristão Discovery Institute.

A chamada "Terapia de Reorientação Sexual", ou "cura gay", não é lá muito diferente disso. Ela também tem seu think-tank gringo, sua aceitação também depende muito mais de con…

100 anos do "Último Adeus"

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Vamos fechar a semana tratando de coisas agradáveis? Hoje faz cem anos que o conto O Último Adeus de Sherlock Holmes (His Last Bow) foi publicado na revista americanaCollier's. Esta história não foi, de fato, o "último adeus" do personagem -- Conan Doyle continuaria publicando novas histórias de Holmes por mais dez anos -- mas ela traz uma série de peculiaridades: é o único conto concebido e escrito em terceira pessoa (o texto de A Pedra Mazarino, que também usa esse tipo de narração, havia sido planejado como peça de teatro), é o mais adiantado na cronologia do personagem (passa-se em 1914) e, claro, trata da atuação de Sherlock Holmes na contraespionagem inglesa às vésperas da I Guerra Mundial.

Segundo Owen Dudley Edwards, editor da coleção de Sherlock Holmes publicada pela Universidade Oxford, o conto parece ter sido inspirado por uma visita de Arthur Conan Doyle ao front francês em 1916, quando o general George-Louis Humbert perguntou ao escritor se Sherlock Holmes …

Estreia da newsletter!

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Um pouco mais cedo, hoje, disparei a primeira edição da newsletter do blog, um e-mail contendo notas que resumem algumas das descobertas científicas mais importantes ou interessantes (em minha opinião, claro) da semana. O cabeçalho foi este:


A manchete trata dos resultados mais recentes da Colaboração Pierre Auger, anunciados na Science.Mais lá pra baixo há outras notas (nesta semana foram sete, ao todo), e concluindo com estas:


(Essa dos dinossauros prossegue, aí só tem o lide)

A newsletter deve seguir toda sexa-feira, para assinantes. Para assinar, é preciso escolher a segunda opção no menu abaixo (a terceira e a quarta também estão valendo, claro...)


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Todo mundo está errado

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Todo mundo acredita em bobagens. Cada um dos leitores deste artigo. E eu também, claro. É óbvio: o ser humano é falível. Qualquer pessoa mentalmente sã deve ser capaz de admitir que, em algum canto do cérebro, haverá pelo menos uma crença falsa, uma convicção inválida, uma opinião que não corresponde aos fatos. Uma bobagem.

Isso, em teoria. Mas, e na prática? Quando analisamos criticamente o conteúdo de nossas mentes e verificamos as crenças que temos, uma a uma, é raro conseguirmos achar algo de errado: mesmo quando nossos amigos ou adversários nos oferecem argumentos que contrariam nossas opiniões, caímos muito facilmente num diagnóstico do tipo “eu sou racional, meu amigo é teimoso, meu adversário é um idiota”. (Leia o restante deste ensaio na Revista Amálgama)

Ciência e sociedade, duas vezes

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Muita gente, e muita gente inteligente, desconfia dos apelos à ciência e à matemática no debate de problemas sociais: nos primórdios de minha carreira jornalística, tive um editor -- excelente jornalista, diga-se -- que não hesitava em igualar o uso de números à mera picaretagem: "estatística é o que diz que o pobre e o rico jantaram, em média, meio banquete cada", dizia. Acusações genéricas de "cientificismo" são hoje menos frequentes do que já foram, mas ainda dão o ar de sua graça.

Numa população com um nível educacional tão baixo e tão pouco afeita a mexer com números (para felicidade dos bancos e das lojas que vendem a prazo), essa atitude ressabiada tem lá sua razão de ser, mas se levada ao extremo, pode causar danos irreparáveis. A melhor resposta que já encontrei está no livro Naked Statistics, do economista Charles Wheelan, que cita o matemático sueco Andrejs Dunkels: "é fácil mentir com estatísticas, mas é difícil contar a verdade sem elas".

Es…

Tchau, Cassini

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A missão Cassini, uma iniciativa conjunta da Nasa e da Agência Espacial Europeia, chega ao fim hoje. O lançamento da Cassini, em 1997, foi um dos primeiros eventos internacionais de ciência de acompanhei profissionalmente como jornalista, num período extremamente movimentado para o setor -- mais ou menos na mesma época, houve o torneio de xadrez entre Garry Kasparov e o computador da IBM, e também o pouso do primeiro robô móvel em Marte, o Sojourner, da Nasa. Foram bons tempos para escrever sobre ciência. Tudo era muito lúdico, maravilhoso, cheio de esperança. A distopia ainda não tinha nos atropelado.

Fazer um balanço de todo o conhecimento -- e do deleite estético -- que Cassini produziu desde que chegou ao sistema formado por Saturno, suas luas e seus anéis é assunto para livros inteiros, então vou ficar com um só, o dos gêiseres de Encélado:



A imagem acima foi feita ano passado, enquanto a Cassini se aproximava para um último sobrevoo do polo sul de Encélado, uma das luas de Satu…

Tem certeza de que se lembra de onde estava em 11/9?

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O aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 geraram uma verdadeira onda de lembranças nas redes sociais, com pessoas perguntando e relatando onde estavam e o que faziam quando os aviões atingiram as torres. Curiosamente, as memórias do 11/9 foram objeto de diversos estudos sobre a ilusão da permanência das chamadas “flashbulb memories”,  as lembranças de eventos marcantes que parecem ficar  “marcados a ferro e fogo” na memória -- mas não ficam.

Em um artigo publicado no periódico Applied Cognitive Psychology em 2004, o pesquisador da Universidade Duke Daniel Greenberg aponta que o presidente dos Estados Unidos na época dos ataques, George W. Bush, num intervalo de pouco mais de 30 dias – entre 4 de dezembro de 2001 e 5 de janeiro de 2002 – deu três versões diferentes sobre como ficou sabendo dos atentados.

Pior, duas dessas versões continham uma alegação impossível: a de que ele havia assistido à transmissão ao vivo da colisão do primeiro avião com as Torres Gêm…

Campanha de assinaturas do blog

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Quem acessou este blog ao longo do feriado talvez tenha encontrado, no rodapé de algumas postagens, um aviso pedindo assinaturas. Aquilo foi o "lançamento suave" da campanha, que retomo agora, numa versão um pouco mais "hard".

Então.

O blog está pedindo assinaturas. Por quê? Basicamente, porque eu gostaria de ter mais liberdade para escolher meus temas (minhas "pautas", como se diz em jornalismo) e, tendo-os escolhido, mais espaço de manobra para apurar os assuntos do jeito que acho que devo, e escrever depois do jeito que acho que devo.

O fato de o blog não gerar renda muitas vezes me força a ser superficial, a deixar alguns temas que considero importantes de lado enquanto corro atrás da ração do gatinho, etc. Assinaturas são um jeito de contornar isso. Claro, se houver assinantes.O projeto "levantar fundos para o blog" também inclui uma lojinha de livros usados dentro do guarda-chuva da Amazon.com.br, aliás.

Não sei se há gente suficiente, aí…

Ciência das confissões e testemunhas

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Confissões e testemunhos oculares são, ao contrário do que a maioria das pessoas parece imaginar, os tipos mais fracos de evidência, e os que mais levam a condenações injustas. O trabalho da ONG americana Innocence Project mostra que 70% das condenações revertidas graças a exames de DNA tiveram, como principal causa, equívocos cometidos por testemunhas. O assunto foi tema de um estudo financiado pelo governo dos Estados Unidos e que acabou resumido num artigo publicado, neste ano, no periódico PNAS. Diz o paper que "as ciências da visão e da memória indicam que erros judiciários baseados em testemunhos oculares são prováveis, a priori, dadas as condições de incerteza, viés e excesso de confiança".

Excesso de confiança é uma expressão-chave: pesquisa publicada em 2003 sobre memórias de eventos de forte apelo emocional (no caso, o ataque às Torres Gêmeas de Nova York), revela que o grau de confiança que uma pessoa diz ter em suas lembranças não se correlaciona com a veracidade…

Judiciário americano e mudança climática

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A Justiça dos Estados Unidos vem sendo cada vez mais acionada em ações envolvendo mudança climática, e o Judiciário vem assumindo um papel importante na formulação da política climática, afirma artigo publicado na edição mais recente da revista Science. O trabalho, que pode ser acessado neste link, é de autoria de pesquisadores da Universidade George Washington.

"Questões científicas associadas à mudança climática não são muito diferentes de grandes controvérsias anteriores que levaram à litigação, como as que envolveram o tabaco e a exposição a produtos químicos", escrevem os autores. "Esses casos podem oferecer insights sobre os possíveis desenvolvimentos na litigância climática, mas a mudança climática também poderá gerar respostas jurídicas únicas".

Por meio de nota, uma das autoras do estudo, Sabrina McCormick, disse que "decisões judiciais que apoiam ou detêm a ação do governo na questão da mudança climática terão impactos nas emissões de gases do efeit…

Em publicação científica, presas e predadores se confundem

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O Brasil é o 13º país que mais inclui trabalhos científicos sobre biomedicina em periódicos internacionais considerados “predatórios”, que cobram para aceitar artigos e publicam-nos sem exigir qualidade mínima ou submetê-los a um processo adequado de revisão pelos pares. De um levantamento de mais de 1,9 mil artigos lançados em 2016, em mais de 200 desses periódicos, vinte e sete, ou 1,4%, tinham, como principal autor ou autor correspondente, um brasileiro.

Os países que dominam esse “ranking negativo” da ciência são Índia (27%), EUA (15%), Nigéria (5%), Irã (4%) e Japão (4%). O levantamento, encabeçado pelo pesquisador canadense  David Mohrer,  do Ottawa Hospital e da Universidade de Ottawa, fundamenta  um duro artigo de opinião publicado na edição desta semana na revista Nature.

Para os autores, o principal achado da pesquisa foi que, ao contrário do que a comunidade científica supunha, a clientela dos editores predatórios não se concentra nos países de renda média ou baixa. “Mais…

Lição de jornalismo de Carl Kolchak

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Tem gente que diz que escolhas profissionais passam, muitas vezes, por protótipos da ficção: advogados que optaram pelo direito depois de assistir a  Perry Mason, ou médicos inspirados por, sei lá, M*A*S*H* ou Grey's Anatomy.  Há até quem diga que todo jornalista sonha em ser Clark Kent. No meu caso particular, no entanto, se há alguma inspiração em heróis ficcionais, é Carl Kolchak.

O personagem foi criado pelo escritor americano Jeff Rice (1944-2015) para seu romance The Kolchak Papers. Antes mesmo que o livro viesse a ser lançado, a história teve seus direitos vendidos para televisão é foi adaptada por Richard Matheson -- mais conhecido pelo romance Eu Sou a Lenda e por ter roteirizado boa parte da série original Além da Imaginação e dos filmes de Roger Corman "baseados" em Edgar Allan Poe --  como o telefilme The Night Stalker.

A história gira em torno de um repórter, o Kolchak do título, que descobre que um serial-killer que ataca em Las Vegas é, na verdade, um vam…

Ciência marcha em legítima defesa

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Às vezes, um grupo de estudantes universitários me convida para falar sobre divulgação científica. Sempre que posso, compareço, e faço alguma versão da minha apresentação "evangélica" sobre a necessidade de os cientistas se envolverem coma  população em geral, comunicando suas descobertas e tendo o máximo possível de paciência com a mídia. As razões que apresento dividem-se em três grupos: prestação de contas (a pesquisa é financiada com dinheiro público), manutenção da democracia (sem acesso a conhecimento confiável, cidadãos e governos tendem a fazer merda) e a última, que cito enquanto apresento o impressionante slide abaixo...

... é defesa pessoal. Basicamente, numa sociedade onde as pessoas responsáveis por definir o orçamento público são eleitas pelo voto popular, a distribuição das verbas tende a refletir as pressões vindas do eleitorado (ou dos financiadores de campanha, mas essa é outra história). Se o eleitorado está cagando e andando para a pesquisa científica, a …

Vício primário

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Uma coisa que sempre me espanta no Brasil é a incapacidade dos agentes públicos -- e, suponho, da população que os elege -- de levar a sério qualquer possibilidade de desenvolvimento econômico que não seja baseada em algum tipo de (neo)extrativismo. É o pré-sal da esquerda, são o nióbio e o grafite da direita estulta, são a soja e o boi da direita "esperta", é, agora, o cobre da Amazônia.

Num cenário em que a produção mundial de bens e serviços cada vez mais se estrutura em redes, com centros dispersos de design, montagem, produção de peças e produção de matéria-prima, só o que parece fazer brilhar os olhos dos brasileiros e entrar na visão estratégica dos governantes são exatamente as etapas de menor valor agregado, que mais agridem o meio ambiente e que mais exploram e maltratam a mão-de-obra. Será outro aspecto do tal "complexo de vira-lata"?

Certa vez conversei com um economista que era fã incondicional da política de "Campeãs Nacionais" do ciclo pet…

Raízes do fascismo

Na fogueira retórica em que o debate público brasileiro se transformou nos últimos anos, a palavra "fascista" acabou sendo reduzida a um xingamento genérico, uma espécie de equivalente de "canalha", cuja única especificidade é a de sinalizar em que lado do espectro político o falante se vê. Historicamente, no entanto, "fascista" significa alguém que adere ao "fascismo" -- a doutrina de que os direitos individuais, e os das minorias, são irrelevantes diante da vontade da maioria, do grupo maior, do Todo, vontade essa que é tida como equivalente à do Líder que comanda o Todo. Após o fim da 2ª Guerra Mundial, vários estudos psicológicos foram realizados para buscar as raízes do fascismo na psiquê humana. Semana passada, escrevi uma matéria a respeito. Ela começa assim:

O que leva uma pessoa a pôr uma bandeira nazista nos ombros e sair por aí gritando “sangue e solo” e “judeus não nos substituirão”? Se você se sentiu tentado a responder “burrice”, s…

Um conto de dois Brunos

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Enquanto pesquisava meu Livro da Astrologia, tive algum contato com o trabalho de Giordano Bruno -- ele foi mais um dos filósofos renascentistas que viam na simbologia astrológica uma espécie de tecnologia mágica para manipular a realidade -- e descobri que, para além de suas especulações sobre a infinitude do cosmo ("apresento-vos minha contemplação sobre o infinito universo e seus mundos inumeráveis", como escreveu certa vez) e dos pronunciamentos heréticos que acabaram por condená-lo à fogueira, o sábio também havia composto uma obra sobre a mnemônica, a arte de fixação e preservação da memória.

No meu tempo, quem estudava para o vestibular acabava bem familiarizado com truques mnemônicos, do tipo "Bela Magrela Casou com Senhor BaRão", que dá os elementos da família 2A da Tabela Periódica. No mundo intelectual da Idade Média e do Renascimento, onde eram comuns disputas retóricas acaloradas e debates ao vivo -- que, eventualmente, poderiam acabar custando a vida…