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Mostrando postagens de 2017

Perguntam-me sobre orgonite...

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Um amigo no Facebook me marca numa postagem e sugere, "discorra sobre o orgonite". Até acessar a postagem eu jamais tinha ouvido falar na palavra, mas a morfologia traz pistas: há a semelhança fonética com "orgone" (ou "orgônio"), a suposta energia sexual universal postulada pelo revolucionário, louco e/ou charlatão (mais sobre isso à frente) Wilhelm Reich; e há o sufixo inglês "ite", em português, mais propriamente, "ita", que costuma aparecer no nome de rochas e minérios (cassiterita, hematita, pirita, etc.). Então, seria uma pedra relacionada ao orgone?

Exatamente -- como este link, por exemplo, revela. Agora, como "discorrer" sobre isso? Apenas dizer "mais uma bobagem" deve soar insatisfatório para quem está lendo. Mergulhar na vida e na obra de Reich em busca do momento em que ele cruzou a barreira entre pensador instigante e doido de pedra é assunto para teses universitárias (e imagino que deva haver algumas …

Arma de fogo e saúde pública

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Um dado curioso no debate empírico sobre a posse de armas de fogo por cidadãos comuns é que ele geralmente gira em torno da questão da segurança pública, e muito pouco da questão da saúde pública. Parando para pensar no assunto, é uma situação estranha: se coisas como automóvel, cachaça, cigarro e até telefones celulares são avaliadas sob a perspectiva do efeito na saúde da população, por que não armas de fogo?

Resposta: porque, nos Estados Unidos, país que financia a maior parte das pesquisas sobre saúde do mundo, um poderoso lobby político sabota, quando não ostensivamente proíbe, qualquer tentativa de se usar dinheiro público para enquadrar as armas de fogo como questão sanitária. Uma peça de opinião publicada recentemente na revista Nature volta a chamar a atenção para esse problema. Em 2013, um abaixo-assinado de uma centena de cientistas já batia na mesma tecla.

"O governo dos Estados Unidos, em  benefício do lobby da bala, limita a compilação de dados, impede que pesquisad…

A múmia começou mulher

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Meu masoquismo cultural ainda não foi forte o suficiente para me levar a ver o novo filme de Tom Cruise, A Múmia, mas alguma atenção especial vem sendo dada ao fato de que, desta vez, o monstro-título pertence ao sexo feminino. Curiosamente, esta é uma decisão até que bem ortodoxa: embora a múmia no cinema tenha sido celebrizada como uma figura masculina -- por Boris Karloff e, depois, Lon Chaney Jr. e Christopher Lee -- seus principais antecedentes literários eram, na maioria, mulheres.

Há um bocado de antropologia escrita em torno do fascínio dos autores britânicos do século 19 com "horrores do Egito". A introdução da antologia Lost in a Pyramid, publicada pela British Library, localiza o início dessa obsessão com a construção do Canal de Suez, entre  1859 e 1869.



A que talvez seja a primeira história ocidental de terror girando em torno de uma múmia egípcia, intitulada exatamente Lost in a Pyramid, publicada em 1869, envolve não apenas uma mulher mumificada como foi escr…

Mulher-Maravilha e o Grande Desastre

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Esta postagem contém leves spoilers sobre o filme


Muito se tem falado, e com, razão, da influência do trabalho do argumentista e desenhista George Pérez no título em quadrinhos da Mulher-Maravilha, principalmente no relançamento da personagem que ele promoveu na segunda metade da década de 80, sobre o filme em cartaz, estrelado por Gal Gadot. Assim como o filme, Pérez se preocupou em amarrar a personagem de modo mais consistente à mitologia grega e fez do deus da guerra, Ares, o principal antagonista. Mas, assistindo a Mulher-Maravilha no cinema, ocorreu-me que um outro canto, menos conhecido, do universo DC também teve papel importante, se não fundamental, na concepção do longa-metragem: a cronologia pós-apocalíptica do Grande Desastre.

Dá para dizer que a primeira série vinculada ao Grande Desastre foi a de Kamandi, "o último rapaz da Terra", escrita e desenhada por Jack Kirby a partir de 1971. Mas a ideia de um universo completo vinculado ao Desastre -- uma terceira guerr…

Sorte ou mérito?

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O anúncio de que a Unicamp realizará estudos para implantar um sistema de cotas em seu vestibular reacendeu não só o debate em torno desse tipo específico de medida (sobre o qual já me manifestei aqui), mas também uma discussão de fundo sobre a origem do sucesso (social, econômico, etc.): sorte ou mérito? Quando uma pessoa se destaca das demais, ela deve isso a suas qualidades e esforço, ou a oportunidades que o acaso jogou em seu caminho? A resposta óbvia seria "um pouco dos dois", mas daí surge uma nova questão: é meio a meio? um dos fatores predomina?

Embora o bom senso sugira que cada caso é um caso, a polarização ideológica da sociedade atual levou à criação de campos distintos, com a direita batendo na tecla do mérito e a esquerda, na da sorte (ou "privilégio"). Para complicar ainda mais a situação, vieses cognitivos turvam a questão, com muita gente que "se deu bem" achando que conseguiu tudo sozinho, na marra; e com muita gente que enfrenta obstá…

Entusiasmo natural

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Uma das narrativas mais cativantes da ciência contemporânea é a do produto natural validado em laboratório: a história do(a) pesquisador(a) que se embrenha na mata, estuda aos pés de velhas benzedeiras e sábios pajés, leva a flor, a lagarta, a folha ou a raiz de volta para a civilização e, dali, obtém a molécula que vai combater a hipertensão, o câncer, as rugas e os pés-de-galinha.

Há muito a admirar nesse tipo de conto. Entre outras coisas, ele sublinha o valor da biodiversidade e o fato de que a sabedoria tradicional e o conhecimento científico podem coexistir num clima de respeito mútuo e maior benefício para a humanidade. Seria difícil encontrar algo mais alinhado ao zeitgeist -- ou, ao menos, àquilo que as pessoas bem-pensantes gostariam que fosse o zeitgeist.

O problema é que o entusiasmo com uma ideia que parece boa demais por motivos emocionais, morais ou políticos pode acabar escondendo evidências de que ela talvez não seja cientificamente tão sólida assim. Por exemplo, em …

Homeopatia, "fosfo", mudança climática

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Há alguns meses, comecei a produzir material, de forma esporádica, para o caderno Ideias do jornal paranaense Gazeta do Povo. Com minha saída da Unicamp, a produção cresceu naturalmente e, na última quinzena, a Gazeta acabou publicando três textos meus que têm muito a ver com o material que comumente aparece neste blog. Divulguei tudo nas redes sociais, mas como sei que esses são canais de oportunidade -- tem de calhar da pessoa interessada estar olhando pra timeline na hora em que o link aparece -- resolvi juntar tudo aqui, para que quem frequenta o blog possa ter acesso ao material de modo mais estável.

Os temas são os que aparecem aí em cima, no título da postagem. Aos links:

Por que a homeopatia, mesmo sem comprovação, ainda tem espaço no Brasil? Este é um misto de artigo e reportagem que toma como "gancho" a polêmica (que ainda grassa) no Jornal da USP a respeito da validade da homeopatia como hipótese científica, disciplina acadêmica e prática médica.

Fosfoetanolamina, …

Livro dos Milagres: último lote autografado!

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Tenho aqui pra vender um lote de cem exemplares de O Livro dos Milagres. Algum leitor do blog interessado? Prometo autografar cada exemplar vendido. Publicado em 2011 pela prestigiada editora de obras de divulgação científica Vieira & Lent (que, entre outras coisas, "descobriu" a Suzana Herculano-Houzel), O Livro dos Milagres foi meu primeiro livro de não-ficção.

Eu já estava com boa parte dele na cabeça quando saí do Estadão, em dezembro de 2010, e a escrita fluiu rapidamente. Ele seguiu a mesma vocação de best-seller da minha obra ficcional -- isto é, nenhuma -- mas foi lá encontrando seu público leitor.

Como o título sugere, o livro trata da investigação científica de supostos eventos milagrosos -- curas em santuários marianos, ou ritos neopentecostais, gente que "fala em línguas", etc. --  e aborda ainda supostos milagres históricos como a abertura do Mar Vermelho, ressurreição de Jesus ou as visões de Maomé. O olhar crítico é, enfim, ecumênico.

Que mais? …

Pânico moral na cracolândia

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Será que as ações recentes da prefeitura paulistana da chamada cracolândia refletem um pânico moral?

Explicando: "pânico moral" é o nome dado por cientistas sociais a situações em que a sociedade, ou uma parte da sociedade, é tomada por uma preocupação irracional e exagerada em relação a uma circunstância que, por algum motivo, é vista como um problema social. Alguns críticos desse conceito queixam-se de que "pânico moral" é apenas um pejorativo usado por uma parcela da sociedade para desqualificar as preocupações de outra, já que não há uma definição objetiva do que seria um "exagero".

Os defensores da validade da expressão, por sua vez, citam exemplos como a Caça às Bruxas do fim da Idade Média e a onda de medo que tomou conta dos Estados Unidos e do Reino Unido, nos anos 80, associada a alegações de que cultos satânicos estariam sequestrando e abusando de crianças. Nada pode ser mais objetivamente exagerado, apontam, do que uma convulsão social em tor…

Debates científicos: quanto é o bastante?

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Um cacoete bastante comum no mundo das pseudociências é o apelo à prova final que está logo ali na esquina -- mais um experimento, mais uma bolsa do CNPq, mais uma análise estatística e o mundo cairá aos nossos pés (ou, melhor dizendo, aos pés lá deles). Se ao menos esses céticos pentelhos não ficassem sabotando...

Duas variações populares do tema são a da conversão iminente -- já temos provas suficientes e o consenso da comunidade científica está prestes a se transformar, espere só mais um bocadinho -- e a da novidade redentora: vocês vão ver como, daqui a pouco, a física quântica (ou a teoria do caos, ou a lógica paraconsistente, ou qualquer que seja o novo craque em campo) vai provar que nosso Mestre estava certo o tempo todo!

Não há nada de essencialmente errado nesse tipo de alegação, é bom reconhecer. Às vezes acontece de aparecer um visionário anunciando uma revolução científica iminente e, pimba!, a revolução vem. O problema é: quanto tempo é o bastante? Qual a hora de parar …

Vacinas, terapias e verdades alternativas

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Poucas leituras me foram mais penosas que a do primeiro capítulo do livro The Panic Virus, uma história do movimento antivacinação nos Estados Unidos e seu terrível impacto sobre a saúde pública.  O relato abre com a história de uma criança de três anos que morreu porque seus pais se recusaram a vaciná-la -- e de outras duas, de poucos meses de idade, que morreram porque os filhos dos vizinhos não tinham sido vacinados, o que as privou do benefício da chamada "imunidade de manada", que existe quando uma proporção suficientemente grande da população tomou vacina e, com isso, cria uma barreira que impede a chegada da doença a crianças que são novas, ou frágeis, demais para receber a imunização.

Esses relatos arrepiantes sempre me vêm á mente quando leio algo sobre os avanços do movimento antivacinação no Brasil, mais uma moda lamentável importada dos EUA, a exemplo do movimento do design inteligente. Neste domingo, o jornal O Estado de S. Paulotraz uma reportagem sobre o assu…

Pint of Science: é hoje!

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Só lembrando os incautos: esta noite estarei no Alzirão II, em Campinas, para falar sobre a sempre tumultuada relação entre a ficção científica e o futuro da humanidade. Não vai ter palco, não vai ter Power Point, só microfone, cerveja e a cola no caderninho. Quem puder, apareça!

Centenário de Fátima: considerações

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Este sábado, 13 de maio, além de ser véspera do Dia das Mães, marca o centenário da primeira suposta aparição de Maria em Fátima. Embora essa aparição inicial tenha tido pouca repercussão pública na época (o famoso "milagre do Sol" só correria meses mais tarde, em outubro) foi ela que desencadeou o que depois viria a ser uma comoção popular em Portugal. Espera-se que dois dos três visionários sejam canonizados, como parte das celebrações deste centenário.A imprensa brasileira está batendo bumbo com o fato de que um dos "milagres" que tornou a canonização possível envolveu compatriotas, mas já escrevi sobre como "milagres" que levam à canonização de figuras populares são quase que estatisticamente inevitáveis.

Em meio ao fervor religioso que deve cercar a festa, é improvável que a mídia tradicional abra espaço para a discussão antropológica, política e científica do fenômeno. Então, tomo a liberdade de fazê-lo aqui. A primeira coisa importante é pôr a ap…

Olha eu no Pint of Science!

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A escritora Ursula K. Le Guin certa vez disse que, para o autor de ficção científica, "o futuro é uma metáfora". Já para o inventor da expressão "ficção científica", o escritor e editor Hugo Gernsback, uma das principais funções do gênero era inspirar engenheiros e cientistas, dando-lhes ideias para serem executadas no futuro. Esse foco no desenvolvimento técnico talvez ajude a explicar por que tantas aventuras passadas milhares de anos no futuro reproduzem estruturas sociais dos anos 30.
Ao longo do século 20, milhares de contos, novelas e romances previram coisas a colonização do Sistema Solar, o Holocausto Nuclear ou a conquista da Terra por alienígenas -- mas apenas uma história, publicada em 1946 e hoje quase esquecida, previu não só a internet como os serviços de streaming, e também os dilemas éticos envolvendo privacidade e liberdade de informação que enfrentamos hoje.
Afinal, qual a relação entre a ficção científica e o futuro? Na noite da próxima terça-fe…

Design Inteligente é propaganda, não ciência

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Bom, a esta altura acho que todo mundo já viu ou ouviu falar da notícia, publicada na Folha de S. Paulo, de que a Universidade Presbiteriana Mackenzie formou uma parceria com Discovery Institute dos Estados Unidos, famoso (ou infame) por desenvolver propaganda religiosa disfarçada de ciência, a fim de trabalhar na promoção da "teoria" do Design Inteligente. A parceria tem um site, que pode ser acessado aqui. O texto de abertura -- "(...) promove estudos científicos focados em complexidade e informação na busca de evidências que apontem para a ação de processos naturais ou design inteligente na natureza (...)" -- sugere que a coisa toda trata de ciência, mas isso é mera cortina de fumaça: trata-se, estritamente, de uma questão de política e relações públicas.

Porque o Discovery Institute é uma instituição de relações públicas. Se não acredita em mim, leia esta declaração de missão no site dos caras. Cito: "A missão do Centro para Ciência e Cultura do Discovery…

Vacina anti-besteira

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Há um ditado no meio da divulgação científica que alega que uma bobagem dita em dez palavras requer pelo menos 100 para ser desmentida. Depois de minhas experiências recentes com as questões da fosfoetanolamina e da Terra plana, temo que essa avaliação seja otimista demais. A questão não é apenas que argumentos intelectualmente honestos requerem espaço para se desenvolver, e a correção de erros conceituais muitas vezes demanda longas explicações passo-a-passo para que se encontre o ponto exato em que o raciocínio caiu no acostamento: há ainda barreiras psicológicas a vencer, muitas das quais só começaram a ser identificadas recentemente.

Há, por exemplo, o efeito rebote, em que bombardear uma pessoa com evidências de que ela está errada gera uma reação defensiva que reforça sua crença inicial -- aquela história de que a fé se fortalece nas adversidades tem lá sua razão de ser.

Esse efeito provavelmente está ligado à estrutura em rede das crenças humanas, a constatação de que crenças n…

Os dançarinos de Conan Doyle

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Acho que ainda não comentei aqui no blog sobre a magnífica coleção de fac-símiles dos manuscritos de Sir Arthur Cona Doyle publicada pelos Baker Street Irregulars. Então, começo a reparar essa omissão logo pelo mais recente, o volumeDancing to Death, que reproduz as páginas manuscritas originais do conto "The Adventure of the Dancing Men", geralmente traduzida como "A Aventura dos Dançarinos":


Este foi o quarto conto produzido por Conan Doyle para a série do Retorno de Sherlock Holmes, que ele foi basicamente subornado a escrever depois de ter dado Holmes como morto e sepultado nas cataratas de Reichenbach, na aventura do Problema Final, publicada em 1893. Dez anos mais tarde, uma oferta feita por um editor americano, de US$ 4 mil por conto (obscenos US$ 100 mil em dinheiro de hoje!), para uma série de oito a doze histórias, produziu a desejada ressurreição de Sherlock Holmes.

Tendo sido a quarta história escrita, Dancing Men foi a terceira a ser publicada, por sug…