A múmia começou mulher


Meu masoquismo cultural ainda não foi forte o suficiente para me levar a ver o novo filme de Tom Cruise, A Múmia, mas alguma atenção especial vem sendo dada ao fato de que, desta vez, o monstro-título pertence ao sexo feminino. Curiosamente, esta é uma decisão até que bem ortodoxa: embora a múmia no cinema tenha sido celebrizada como uma figura masculina -- por Boris Karloff e, depois, Lon Chaney Jr. e Christopher Lee -- seus principais antecedentes literários eram, na maioria, mulheres.

Há um bocado de antropologia escrita em torno do fascínio dos autores britânicos do século 19 com "horrores do Egito". A introdução da antologia Lost in a Pyramid, publicada pela British Library, localiza o início dessa obsessão com a construção do Canal de Suez, entre  1859 e 1869.



A que talvez seja a primeira história ocidental de terror girando em torno de uma múmia egípcia, intitulada exatamente Lost in a Pyramid, publicada em 1869, envolve não apenas uma mulher mumificada como foi escrita por uma mulher -- Louisa May Alcott, mais conhecida como autora do clássico Mulherzinhas.

Múmias femininas também dominam os romances The Jewel of Seven Stars, de Bram Stoker, publicado em 1903, e Brood of the Witch-Queen, de Sax Rohmer,  publicado em 1918. Seven Stars é famoso por ter dois finais, um feliz, incorporado ao livro em 1912, e outro, bem mais sinistro, que consta da edição original. Ambos os livros devem tanto ao Dracula de Stoker quanto ao conto Ligeia de Edgar Allan Poe.



A linhagem das histórias de terror memoráveis protagonizadas por múmias masculinas remonta ao conto Lot No. 249, de Arthur Conan Doyle, que lança a tradição da múmia como uma espécie de assassino indestrutível teleguiado por forças ocultas. Essa versão é a que ficaria famosa graças aos filmes da Hammer, como The Mummy, de 1959, solapando a figura insidiosa da múmia que caminha entre os homens disfarçada como um ser humano natural, criada por Boris Karloff para The Mummy original, de 1932.



Uma narrativa constante que percorre muitas histórias de múmias femininas, do conto de Alcott, passando pelos romances de Stoker e Rohmer e de certo modo presente, até, no filme com Karloff, diz respeito à mulher egípcia que, morta há milênios, tenta, de algum modo, destruir a vida -- quando não possuir o corpo -- de uma jovem ocidental.


 No conto de Alcott, a vingança da múmia recai, por acaso, sobre a noiva inocente do protagonista, abatendo-a na noite de núpcias. No romance de Stoker, também é uma noiva quem mais sofre e, de acordo com o final trágico original, provavelmente sucumbe antes do casamento, embora haja insinuações mais sinistras no desfecho um tanto quanto ambíguo do romance. Em muitas dessas histórias, a fúria das mortas se abate sobre as vivas, enquanto os homens ficam olhando sem entender nada.

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