Mulher-Maravilha e o Grande Desastre



Esta postagem contém leves spoilers sobre o filme


Muito se tem falado, e com, razão, da influência do trabalho do argumentista e desenhista George Pérez no título em quadrinhos da Mulher-Maravilha, principalmente no relançamento da personagem que ele promoveu na segunda metade da década de 80, sobre o filme em cartaz, estrelado por Gal Gadot. Assim como o filme, Pérez se preocupou em amarrar a personagem de modo mais consistente à mitologia grega e fez do deus da guerra, Ares, o principal antagonista. Mas, assistindo a Mulher-Maravilha no cinema, ocorreu-me que um outro canto, menos conhecido, do universo DC também teve papel importante, se não fundamental, na concepção do longa-metragem: a cronologia pós-apocalíptica do Grande Desastre.

Dá para dizer que a primeira série vinculada ao Grande Desastre foi a de Kamandi, "o último rapaz da Terra", escrita e desenhada por Jack Kirby a partir de 1971. Mas a ideia de um universo completo vinculado ao Desastre -- uma terceira guerra mundial, que deixaria o planeta à mercê de mutantes, zumbis e animais "evoluídos" -- só foi tomando forma aos poucos, até que em 1976, numa aventura de Superman escrita pelo meu roteirista favorito do herói, Elliot S! Maggin, somos apresentados a uma espécie de "regra do jogo": em algum ponto do futuro (que depois seria definido como o ano de 1986), a humanidade passaria por uma espécie de teste crucial que a levaria ou ao Grande Desastre ou ao futuro semi-utópico da velha ficção científica, com ciência avançada, colonização espacial, etc.



Além de Kamandi, outros títulos foram "retconeados" para dentro da cronologia alternativa do Grande Desastre. O mais lembrado é o dos Cavaleiros Atômicos, de John Broome e Murphy Anderson. Criados originalmente nos anos 60, os cavaleiros tornaram-se ícones inesquecíveis não só por seu charme típico da Era de Prata, mas também pelo surrealismo -- quando não pelo ridículo -- da premissa: homens de armadura cavalgando dálmatas gigantes numa terra devastada pela guerra nuclear. Sem brincadeira:



No entanto, uma série específica foi criada para ser a espinha dorsal da narrativa do Grande Desastre. Estreando em 1976, com roteiro de Gerry Conway, arte de José Luis García-Lopez e arte-final do lendário Wally Wood, Hercules Unbound ("Hércules Livre", ou "Hércules Liberto") mostrava o semideus olimpiano vagando, com um grupo dedicado de amigos, por uma Europa devastada pela guerra nuclear, em busca do maligno deus Ares, revelado como o responsável secreto pelo conflito, que estimula generais à carnificina e dá ideias insalubres às pessoas.



Trocando "guerra nuclear" por "primeira guerra mundial" e "semideus Hércules" por "semideusa Diana", o que temos é o plot básico do filme da Princesa Amazona. Infelizmente,  Hercules Unbound revelou-se uma série irregular, com a linha narrativa envolvendo Ares se encerrando de forma atabalhoada em seis números. Conway acabou substituído por David Micheline, e em seus números finais (o título durou somente 12 edições) as histórias estavam sendo escritas por Cary Bates e desenhadas por Walt Simonson. Dá para dizer, talvez, que foi em sua breve passagem por Hércules Liberto que Simonson apurou o estilo "épico" de desenho que depois faria tanto sucesso no Poderoso Thor:



Um artigo escrito por Paul Levitz para o "fanzine oficial" da DC dos anos 70, o Amazing World of DC Comics, descreve o que deveria ter sido o desenrolar da cronologia do Grande Desastre, caso a revista de Hércules não tivesse passado por tantos percalços. Segundo Levitz, a Terceira Guerra Mundial, que poderia começar (ou não) em outubro de 1986, seria um reflexo, no plano mortal, de um ataque dos deuses de Apokolips ao Monte Olimpo. Apenas Hércules e Ares sobreviveriam à conflagração, Hércules por encontrar-se na Terra, Ares por ser o traidor que entregara a chave do Olimpo a Darkseid, que teria descoberto que a Equação Antivida estava oculta na mente de Zeus.



  Mais uma vez, esses pontos de plot -- Ares traidor, Olimpo devastado, apenas Ares e um semideus (semideusa) sobrevivendo ao colapso dos olimpianos -- reaparecem no filme da Mulher-Maravilha. Só fica faltando o ataque de Darkseid ao Olimpo, mas dada direção geral apontada pelos trailers do futuro filme da Liga da Justiça, até mesmo isso pode ser só uma questão de tempo. Vale lembrar que a ideia de um conflito entre Novos Deuses e olimpianos, envolvendo a Mulher-Maravilha, já foi explorada nas HQs por John Byrne, nos anos 90.

Será que houve inspiração consciente do roteiro de Mulher-Maravilha na saga do Grande Desastre, mais exatamente na linha narrativa de Hercules Unbound? Talvez não. Pode se tratar apenas de um caso de "evolução convergente": Mulher-Maravilha, afinal, já era uma personagem ligada à guerra, a ideia de tirar o resto do Olimpo da jogada faz sentido -- simplifica a narrativa -- e Ares é o tipo de ser mitológico que pede para ser usado como vilão. No mínimo, os paralelos sugerem que problemas narrativos semelhantes tendem a ser resolvidos de modo semelhante, mesmo após intervalos de mais de quatro décadas. 

Comentários

  1. Eles explicam como Ares ganhou os poders de Zeus de controlar os raios?

    []s,

    Roberto Takata

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    Respostas
    1. Não! Hercules Unbound vira uma mixórdia no terço final, com o Cary Bates inventando uns tais de "antideuses" que sugam poder dos olimpianos... Ficou meio na cara que deram pra ele quatro edições pra encerra a série de modo honrado e ele fez o que pôde. Mas não é dificil "supor" que, quando um deus morre, seu assassino fica com os poderes, à la Highlander... :P

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