Falácias favoritas



Enquanto me preparava, na última semana, para a mesa sobre divulgação científica da qual participei, na USP de Ribeirão Preto (com Pirula e Reinaldo José Lopes), reli Como Mentir com Estatística, de Darrell Heff, um clássico da alfabetização estatística publicado originalmente em 1954. O livro de Heff é curto, ilustrado com divertidos cartuns assinados por Irving Geis, e evita entrar em detalhes técnicos abordados por diversas obras posteriores, como O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, ou mesmo o Cartoon Guide to Statistics, de Larry Gonick (de onde saiu a ilustração abaixo).




O objetivo de Heff não é ensinar a fazer estatística, ou apresentar as bases filosóficas do pensamento estatístico/probabilístico, mas educar o leitor leigo para que seu simples bom-senso não seja eclipsado por gráficos, porcentagens e alegações supostamente "apoiadas em dados estatísticos".

Nesse trabalho, o autor chama atenção para duas falácias que eram de uso comum no discurso político e publicitário da década de 50 e que continuam extremamente populares hoje em dia; na verdade, dado o tsunami de "textões" que assola o mundo moderno, pode-se dizer que são mais usadas agora do que nunca: confundir correlação com causação e sua prima-irmã, o post hoc (confundir proximidade no tempo com causa e efeito). Na verdade, trata-se de uma dupla de falácias tão conhecida, e desmascarada tantas vezes já, que é surpreendente que ainda sejam tão eficazes.

Primeiro correlação-causação: é a falácia de achar que, por que dois fenômenos variam de forma conjunta durante um determinado período de tempo, um causa ou, pelo menos, é um fator que influencia o outro. Não necessariamente: ambos podem ser causados (ou influenciados) por um terceiro fator, desconhecido ou não levado em consideração. Ou a coincidência temporal pode ser apenas isso, uma coincidência -- quando se expande a série para um período mais amplo, a correlação some. Há até um divertido website dedicado a explorar correlações espúrias, que foi de onde tirei o gráfico abaixo:


Diversos trabalhos científicos começam com a constatação de correlações, mas para serem validados precisam aprofundar-se e eliminar os chamados fatores de confusão -- as possíveis causas e influências inicialmente  desconhecidas ou ignoradas. Foi o que foi feito, por exemplo, na questão do aquecimento global, onde a correlação inicial entre emissão de CO2 e temperatura média mundial nos últimos séculos foi complementada pelo estudo das demais "forçantes" climáticas (fatores como a luminosidade solar, que também poderiam estar alterando o clima).

Outro exemplo: em sua edição deste sábado, o jornal O Estado de S. Paulo noticia um estudo que aponta uma correlação entre prática do ioga e a saúde de certas estruturas do cérebro na terceira idade.



Em princípio, o título da notícia é injustificado: talvez pessoas que têm essas estruturas cerebrais mais desenvolvidas sintam-se atraídas por atividades como o ioga, por exemplo. Nesse caso, não é o ioga que evita os problemas do envelhecimento, e sim a predisposição (genética, talvez) a um envelhecimento mais saudável que atrai as pessoas para o ioga. Mas os autores do trabalho já projetam novos estudos, e é assim que a ciência avança.

Correlações falsas ou, no mínimo, duvidosas, são comuns no noticiário, mas no discurso público -- o que vemos nas tribunas das casas legislativas, nas páginas de opinião, nos comícios, nas redes sociais -- elas perdem para sua prima, o post-hoc. Sua forma clássica é "aconteceu X, depois Y, logo Y só aconteceu por causa de X". Note como ela é onipresente: são políticos reivindicando crédito por tudo que deu certo durante seus mandatos, ao mesmo tempo em que a oposição os culpa por tudo que deu errado; são lobbies atribuindo sucessos estrondosos às políticas que defendem, ou aos produtos que vendem. É gente atribuindo o aumento da taxa de divórcios à minissaia.

O post-hoc pode ser obviamente ridículo (por exemplo, dá para dizer que o número de casos de varíola no mundo caiu muito após o assassinato de Martin Luther King), mas muitas vezes é difícil identificá-lo, porque a ocorrência X pode ter se dado com a intenção de produzir Y.  Se você faz uma coisa para conseguir outra, e aí consegue, então o que você fez estava certo. Certo?

Não necessariamente. Pense em superstições, curas pela oração, placebos diversos, mudanças na economia que, segundo o governo (qualquer governo) sempre são causadas por fatores externos (quando para pior) ou em resposta à política econômica interna (quando para melhor). O post-hoc intencional é talvez a mais poderosa falácia do debate público. Convém ficar de olho nela para 2018.

Comentários

  1. Prezado, Carlos Orsi, o senhor escreveu sobre o resultado do ultimo estudo da fosfoetanalomina aqui no seu blog ou apenas em outras mídias como a "Gazeta do povo"?

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    1. Olá, Hilton! Acho que só tratei da suspensão da entrada de novos voluntários lá na reportagem da Gazeta, mesmo

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    2. Estou divulgando uma versão da historia que mostro como o assunto tem sido distorcido e tratado de forma parcial e tendenciosa, por parte de alguns divulgadores como o sr.
      Algumas fontes desde o pronunciamento do dr. Hoff, já afirmaram que o caso foi encerrado, sendo concluído que a substancia não apresentou eficácia... o sr. pelo menos foi mais cauteloso ao tratar esse ultimo parecer mas em contrapartida apresentou a mesma deficiência ao tratar os primeiros testes, sendo que o sr. continuou a citar o primeiro teste mesmo após o mesmo ter sido contestado pela DPU, por causa de suas falhas metodológicas.
      O sr. assim como outros, omite que os testes da segunda fase apresentaram resultados positivos para síntese de "São Carlos", ao contrário da síntese da UNICAMP e a monoetanolamina pura, essa ultima que tanto foi apontada como o real principio responsável pela eficácia do composto, mesmo os testes terem mostrado o contrário...

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