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Mostrando postagens de 2018

Divulgação científica: agenda cheia em maio

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"Divulgação científica" é uma daquelas expressões -- como "democracia" ou "justiça" -- que todo mundo concorda que se refere a algo essencial, mas cuja natureza exata tende a ser alvo de intensa disputa.

Há que se distinguir divulgação de educação, há que se decidir se a prioridade é divulgar conteúdos ou modos de pensar, há que se tomar cuidado para que a divulgação "WOW!" (pássaros lindos, estrelas fantásticas, gênios excêntricos) não sufoque a divulgação "de combate" (crítica a charlatanismos e raciocínios tortos, denúncia de fraudes, esclarecimentos sobre saúde ou meio ambiente).

Há que se pensar no público: na academia e no microcosmo das bolhas online, principalmente, é muito fácil cair na ilusão de que se está fazendo divulgação científica quando, na verdade, seu público é sempre aquela meia dúzia de fãs de Carl Sagan que são as pessoas que menos precisam ouvir o que você está dizendo (não é improvável que a carapuça sirva para…

Demônios e ETs em Fátima: erros instrutivos

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Se você, como eu, sofre de uma curiosidade patológica a respeito do que borbulha e fermenta na franja lunática da pseudociência -- clones ciborgues templários de Jesus e conspirações urdidas por demônios lovecraftianos do espaço, coisas perto das quais até homeopatia parece razoável -- uma boa ideia é assinar a newsletter de Jason Colativo, um antropólogo americano  que construiu uma carreira correndo atrás das besteiras que o History Channel empurra para seus telespectadores.

Nesta semana, Colavito chama atenção para  uma pequena indústria que vem sendo criada, tendo como alvo o público evangélico de língua inglesa, para vincular as aparições de Fátima a demônios e extraterrestres. A escolha de  nicho tem lá sua lógica: dizer que os milagres da religião dos outros é, na verdade, ilusão demoníaca representa uma estratégia antiga, mas bem-sucedida.

Para os leitores que não tiveram o duvidoso benefício de uma educação católica (e nem leram meu Livro dos Milagres): entre maio e outubro d…

"Fosfo", terapias alternativas e a maldição do falso positivo

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A fosfoetanolamina sintética volta ao noticiário (aqui e aqui), poucas semanas depois de o Ministério da Saúde produzir manchetes com sua decisão descerebrada de ampliar a oferta de "práticas alternativas e complementares". Já escrevi mais do que o suficiente (aqui, aqui, aqui), imagino, sobre esses dois casos específicos, e então achei que seria hora de tratar do fenômeno mais geral: o fato de tantas pessoas se encantarem com, converterem-se em verdadeiros paladinos de, supostas terapias que não só não funcionam, como ainda por cima podem ser perigosas ou, até mesmo, letais.

E não se trata apenas do que gosto de chamar de "Efeito Franklin", que acontece quando uma pessoa, tendo sido enganada, passa a defender fervorosamente quem a enganou, só para não ter de dar o braço a torcer (tirei o nome da frase atribuída a Benjamin Franklin, "só quem mente mais do que um charlatão são suas vítimas"). Há algo muito mais profundo aí.

Durante milhares de anos, a med…

Pseudociências, cristais, jornalismo

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Em seu divertidíssimo livro sobre a história da medicina e das terapias "integrativas e complementares", Suckers, a jornalista britânica de saúde Rose Shapiro aponta uma distinção simples -- e categórica -- entre a ciência médica e as diversas tradições culturais em que terapeutas alternativos buscam (ou dizem buscar) inspiração: enquanto a ciência foi descobrindo inúmeras causas para as doenças (vírus, bactérias, genética, contaminantes ambientais, estilos de vida, etc.), os integrativos costumam se agarrar a uma monocausa, uma causa única para todo mal: desequilíbrio. Desarmonia. Desalinhamento.

Seja do chi, do prana, do yin ou do yang, da coluna vertebral, da dieta ou de algo genérico como "as vibrações", sempre há uma coisa fora da ordem que, se recolocada no devido lugar, traz a cura. Mesmo se reconhecem a existência de causas imediatas para a doença -- um parasita, uma infecção, uma mutação -- esses terapeutas tendem a pressupor que o agente só conseguiu ata…

Variedades da experiência placeba

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Muito já se lamentou, de ontem para hoje nas redes sociais, sobre a decisão do Ministério da Saúde de ampliar a oferta das chamadas "terapias complementares e alternativas" no Sistema Único de Saúde (SUS). Chamou-se atenção, por exemplo, para o fato de que países com sistemas de saúde pública funcionais, como o Reino Unido,  vêm excluindo essas terapias de seu rol de procedimentos, com o objetivo de otimizar o gasto público, e o SUS não tem exatamente dinheiro para queimar em bobagem; e de que não há evidência científica de que essas terapias funcionem melhor do que um placebo (isto é, do que mentir para o paciente, dizendo que o copo de água que ele tomou durante a consulta era remédio).

É sobre este segundo ponto que eu gostaria de me debruçar no momento. Há algum tempo (pelo menos desde as "Homeopathy Wars" do Jornal da USP, no ano passado) que os proponentes de terapias alternativas vêm respondendo a essa acusação com um "Mas nós temos evidências!"

E…

Notícias falsas: culpa sua, não do robô

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Pessoas físicas, seres humanos, são mais eficientes para espalhar fake news no Twitter do que robôs. E quem diz não sou eu, é o pessoal que pesquisou o assunto e publicou na Science. Depois de rastrear o percurso de 126 mil histórias, verdadeiras ou falsas, postadas entre 2006 e 2017, compartilhadas mais de 4,5 milhões de vezes, os autores concluíram que "contrariando o senso-comum, robôs aceleraram a disseminação de notícias falsas e verdadeiras na mesma proporção, implicando que as notícias falsas se espalham mais que as verdadeiras porque humanos, não robôs, tendem a espalhá-las mais".

"Falsidades difundem-se chegando significativamente mais longe, mais depressa, vão mais fundo e de modo mais amplo em todas as categorias de informação", diz o resumo do artigo. Política é a categoria em que essas notícias têm mais impacto. Lá pelo miolo do texto, somos informados de que "quando estimamos um modelo de probabilidade de retuitar, determinamos que falsidades tê…

Ciência 1, 2, 3

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Em seu livro de ensaios Pluto's Republic, o ganhador do Nobel de Medicina Peter Medawar impacienta-se, seguidas vezes -- preservando sempre aquela elegância ferina que os melhores ensaístas britânicos são mestres em manter, quando exasperados -- com a facilidade com que o que chamaríamos de "pessoal de Humanas" faz pouco caso do que, para Medawar, é a característica que distingue as ciências de todos os outros esforços humanos para fazer sentido do mundo: a correspondência com a realidade.
Medawar gasta alguns parágrafos, por exemplo, criticando o antropólogo francês Claude Levi-Strauss. Quando Levi-Strauss escreve, em O Pensamento Selvagem, que para os povos siberianos que mantêm o mito de que bico de pica-pau cura dor de dente é, de fato, irrelevante se o bico realiza mesmo a cura -- que o importante é que, por meio do mito, "alguma ordem seja introduzida no mundo" -- Medawar pergunta se esse ponto de vista é tão agradável, para o pobre siberiano com um abce…

E sobre Star Trek Discovery?

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Quando a série Star Trek: Discovery estreou na Netflix, escrevi uma postagem neste blog me declarando otimista. Agora que a primeira temporada acabou, portanto, creio que cabe um post mortem. Mas, antes disso, uma digressão.

Jornada nas Estrelas (ou Star Trek, para poupar o teclado) sempre foi duas coisas diferentes: uma promessa e uma realidade. A promessa, promovida com tamanha vivacidade pelo criador Gene Roddenberry que muita gente chegou a confundi-la com a realidade, era a de um espetáculo que usaria a linguagem da ficção científica para explorar questões morais, políticas, sociais e científicas de modo instigante e inteligente; além disso, a de tentar demonstrar que a parte realmente interessante da experiência humana só iria começar, de fato, depois que tivéssemos construído uma utopia na Terra, e que essa utopia seria atingida por meio da compaixão, da lógica e da ciência, não de forças míticas ou místicas (não é por menos que a frase final de Star Trek: The Motion Picture é …

Falso disco voador (re)encontrado em museu

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Os restos de um "UFO" que teria caído num pântano inglês em 1957, poucas semanas após o lançamento do Sputnik, foram redescobertos, recentemente, no depósito do Museu de Ciência de Londres, informou, no início do mês, o jornal Yorkshire Post. O autor do artigo que relata a descoberta, jornalista David Clarke, é autor do livro How UFOs Conquered the World, que aborda a saga dos objetos voadores não-identificados como fenômeno cultural. Como mostram fotos de jornal de 60 anos atrás, o suposto óvni -- que, antes de desaparecer no depósito do museu, chegou a ser declarado "a fraude mais cara e bem elaborada da Grã-Bretanha" -- era uma miniatura:



Depois de descoberto, o suposto disco voador foi aberto, revelando em seu interior um livreto de folhas de cobre cobertas por "hieroglifos". Decifrados pelo dono de uma cafeteria (yep), esses sinais mostraram-se um aviso dos extraterrestres para os humanos, exortando os terráqueos a evitar um conflito nuclear: "e…

A Lição de Tales para escritores

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Tales de Mileto (624-546 AEC) é tradicionalmente considerado o primeiro "cientista" do Ocidente: ele teria sido o primeiro sábio a tentar explicar os fenômenos da natureza nos termos da natureza, sem apelar para a linguagem da religião e do mito. Também teria sido o primeiro a prever com sucesso um eclipse solar. Era um homem adiante de seu tempo e, sob muitos aspectos, até do nosso.

Além de proto-cientista, no entanto, Tales também foi um observador arguto da natureza humana, e um sujeito com um ótimo senso de ironia. De acordo com o biógrafo Diógenes Laércio, certa vez perguntaram a Tales o que teria surgido primeiro, o dia ou a noite, ao que ele respondeu: "A noite, que veio um dia antes".

Suas respostas epigramáticas mais famosas são as que deu à questão sobre qual a coisa mais difícil do mundo ("conhecer-se a si mesmo")  e a mais fácil ("dar conselhos aos outros"). Incapaz de olhar com clareza para o próprio umbigo, o ser humano ainda assi…

Truques paradoxalistas

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Pesquisando para uma postagem que fiz semana passada, encontrei uma expressão, "paradoxalistas", usada por Alfred Russell Wallace para se referir a pessoas que se recusam, teimosamente, a aceitar evidência científica que contradiz suas crenças pessoais. Wallace, especificamente, teve uma série de problemas com terraplanistas, que ele acabou processando por calúnia diversas vezes.

Em sua autobiografia, Wallace se refere a sua polêmica com os terraplanistas como "o incidente mais lamentável de minha vida": depois de demonstrar, empiricamente, a curvatura ad Terra, respondendo a um desafio desse grupo, o cientista passou a ser alvo de incômodos de diversos tipos, incluindo processos judiciais e cartas difamatórias. Ele escreve no livro que o geólogo Charles Lyell acreditava que uma demonstração clara da curvatura deveria "deter esses tolos". O que, obviamente, não aconteceu.

Terra plana é apenas uma faceta do paradoxalismo. A síndrome reaparece em diversos …

On writing

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Estava fazendo umas contas e percebi que 2018 será o ano em que mais contos inéditos meus sairão, em inglês, do que em português: além da história já publicada em Mystery Weekly, vem aí mais um na antologia A World of Horror, a sair nos próximos meses, e ainda um mistério de quarto fechado programado para a edição de maio/junho de Ellery Queen Mystery Magazine -- e esse conto acabou me trazendo um convite para colaborar com o blog da revista. Aqui o Brasil, fora as histórias antigas programadas para antologias multi-autorais, deve sair um conto novo -- se tanto.

Nada disso, claro, aconteceu do dia para a noite. Comecei a arriscar textos em inglês ainda no século passado, escrevendo para fanzines. Minha primeira venda foi para a antologia Rehearsals for Oblivion, publicada em 2006. Depois, War Stories, de 2014, e Swords vs Cthulhu, 2016. Nesse meio tempo, minha colaboração com Octavio Aragão misturando José de Alencar, Edgar Rice Burroughs e Philip José Farmer também ganhou uma certa …

Terraplanismo, século 19

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A reemergência do movimento "terraplanista" -- que defende a ideia de que o planeta Terra é chato como uma panqueca -- neste início de século é, às vezes, citado como prova da decadência geral da mentalidade humana no novo milênio. Não deixa de ser um alívio, portanto, descobrir que as mesmas ideias -- defendidas com a mesma convicção e os mesmos argumentos furados -- já  circulavam no século 19.

Uma edição de 1870 da revista Nature traz uma nota sobre uma aposta de 500 libras (algo como 56 mil libras em dinheiro de hoje, ou mais de 250 mil reais) entre um terraplanista, John Hampden, e o co-descobridor da evolução por seleção natural, Alfred Russell Wallace, para determinar a forma da Terra.

Foram usados três estacas de 4 metros, espaçadas a intervalos de 5 quilômetros. Por meio de um par de telescópios, um em cada extremidade da fila de estacas, buscou-se uma linha de visada ligando a primeira estaca à terceira. A aposta dizia respeito à altura aparente a estaca do meio. …

Vaca louca e febre amarela: apontamentos

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O livro The Oxford Handbook of the Science of Science Communication tem um capítulo dedicado ao vexame que foi a comunicação entre cientistas, governo britânico e público durante a chamada "crise da vaca louca", desencadeada nos anos 90 quando se descobriu que uma doença neurológica, que podia afetar gado alimentado com um certo tipo de ração, era transmissível, via consumo de carne bovina, para seres humanos.

Embora o foco do capítulo esteja nas lições desse episódio para a comunicação de riscos alimentares, há alguns pontos que talvez sejam úteis para quem se encontra envolvido na atual onda de incertezas e contradições governamentais em torno da febre amarela.

Uma das principais conclusões do capítulo diz respeito ao elevado "risco de dizer que não há risco": se as autoridades insistem que não há perigo, ou que a situação está sob controle -- que "não há risco" -- e depois se veem desmentidas pelos fatos, sua credibilidade sofre, e a chance de pânico …

Ciência, tecnologia e pobreza

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Cientistas e divulgadores costumam atribuir negação ou a hostilidade à ciência a questões político-ideológicas ou religiosas. Mas, em artigo publicado na edição mais recente da revista Skeptical Inquirer, o pesquisador de comunicação científica Matthew Nisbet cita trabalhos empíricos que sugerem outros fatores que influenciam essas posturas, incluindo um que parece ser ainda mais importante do que religião ou política, na determinação do olhar -- favorável ou hostil -- do público americano diante da ciência e da tecnologia: classe social. Os mais pobres desconfiam mais, e têm mais receio, de avanços científicos e tecnológicos.

"Essas pessoas podem ter uma preocupação justificada sobre como poderão competir numa economia baseada em inovação, pagar o preço dos novos avanços médicos e tecnológicos e como esses avanços poderão reforçar padrões de discriminação e outras desigualdades", escreve Nesbit.

Entre as principais fontes de preocupação encontram-se a automação -- incluind…

O rebote do efeito rebote

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As controvérsias públicas em torno de questões científicas que não são mais controversas entre cientistas -- como vacinação, aquecimento global, evolução -- acabaram gerando uma questão de pesquisa dentro da psicologia e das ciências sociais: por quê? Por que a população em geral parece feliz em acatar a chamada "ciência estabelecida", definida como o consenso presente dos especialistas, em inúmeras questões, mas às vezes opta por ignorá-la, agir contra ela, negá-la violentamente, fingir que ela não existe?

Não há, aparentemente, uma resposta única. A explicação default é a chamada "teoria do déficit": as pessoas negam a ciência estabelecida porque não tiveram acesso a ela, não sabem o que ela diz. A teoria do déficit muitas vezes é atacada a partir de um ponto de vista que defende um certo relativismo epistemológico: seria, digamos, politicamente incorreto insinuar (ou afirmar) que o povo é ignorante.

O problema com essa crítica é que ela veta, in limine, a possi…